
Peculiaridades
por Rachel Souza
-Vou ao salão!Anunciou ao vazio a liberada e jovem senhora.
Eram 10:00 da manhã, ainda não tinha feito seu desjejum, não estava com fome, embora não tivesse ingerido nada sólido desde o dia anterior, só líquidos e, dos mais caros.
Estava plenamente saciada. -Sou mais eu! Repetia internamente com a força de um mantra.Saiu do banheiro, o seu banheiro, mas precisamente da frente do espelho, o seu espelho, com ar de "já ganhei”, deu o último jato de perfume em seu corpo devidamente malhado e lipoaspirado com a certeza de que alguém o sentiria, alguém que ela ainda não conhecia, mas isso não importava.
-Só ontem foram três... Contabiliza por um instante.
Esmagadora!Era o adjetivo que algum lhe atribuira.E realmente era, passava por cima de tudo com a certeza de que sairia inteira.Checou as luzes desligadas, verificou a secretária eletrônica, Seis recados novos...
-Olho quando voltar...Desdenhou.
Fechou a porta e seguiu até o salão.
-Oi, querida!Quero uma nova cor!Diz, imperativa à cabeleireira.
-Claro perua, você manda! Vai querer o quê?Amarelo caju?Castanho imperial?Mel da Coréia?Já vou dizendo que são tintas exclusivas, separei pra você!
-Não sei ainda, o que sugere pra mim?Só queria mudar o tom, já estou há 2 meses com o preto-da-china-semi-fúcsia!! Não agüento mais,
Meu Deus!
-Ih, sente aí que vou dar um jeito na sua vida agoraaa!Vibra a cabeleireira, que ainda não almoçou, mas age como se o tivesse.
-Acho bom mesmo, afinal de contas sou uma mulher mutante meu amorrrrr!
Iniciam então a operação e um interminável e animado colóquio, falam de tudo e de nada, do novo namorado da nova estrela da nova geração, do preço das coisas, da violência, dos homens...
Fica evidente, nas entrelinhas, toda carência portada por tão emancipada dama. É quase matemático, quanto mais fala mais acredita. É exatamente disso que ela precisa, falar, falar, falar, até acreditar no que diz.Acreditar que não precisa de ninguém, que sabe o que quer, que tem o controle da situação nas lindas mãos, feitas duas vezes por semana.Tintas, escovas, secadores, conselhos e palavras de auto-afirmação espalhadas entre um cafezinho e outro.Tudo, tudo, tudo!! Passou a tarde naquilo, ficou linda! Pagou, beijou e abraçou meia-dúzia e prometeu voltar pra retocar a raiz na semana seguinte.Saiu ainda mais confiante do que quando entrou, no caminho de casa viu um vestido na vitrine, comprou! Arrumou-se deslumbrante pra alguém, ligou a TV, passava um filme inédito, assistiu até dormir, sozinha, no sofá...
-Vou ao salão!Anunciou ao vazio a liberada e jovem senhora.
Eram 10:00 da manhã, ainda não tinha feito seu desjejum, não estava com fome, embora não tivesse ingerido nada sólido desde o dia anterior, só líquidos e, dos mais caros.
Estava plenamente saciada. -Sou mais eu! Repetia internamente com a força de um mantra.Saiu do banheiro, o seu banheiro, mas precisamente da frente do espelho, o seu espelho, com ar de "já ganhei”, deu o último jato de perfume em seu corpo devidamente malhado e lipoaspirado com a certeza de que alguém o sentiria, alguém que ela ainda não conhecia, mas isso não importava.
-Só ontem foram três... Contabiliza por um instante.
Esmagadora!Era o adjetivo que algum lhe atribuira.E realmente era, passava por cima de tudo com a certeza de que sairia inteira.Checou as luzes desligadas, verificou a secretária eletrônica, Seis recados novos...
-Olho quando voltar...Desdenhou.
Fechou a porta e seguiu até o salão.
-Oi, querida!Quero uma nova cor!Diz, imperativa à cabeleireira.
-Claro perua, você manda! Vai querer o quê?Amarelo caju?Castanho imperial?Mel da Coréia?Já vou dizendo que são tintas exclusivas, separei pra você!
-Não sei ainda, o que sugere pra mim?Só queria mudar o tom, já estou há 2 meses com o preto-da-china-semi-fúcsia!! Não agüento mais,
Meu Deus!
-Ih, sente aí que vou dar um jeito na sua vida agoraaa!Vibra a cabeleireira, que ainda não almoçou, mas age como se o tivesse.
-Acho bom mesmo, afinal de contas sou uma mulher mutante meu amorrrrr!
Iniciam então a operação e um interminável e animado colóquio, falam de tudo e de nada, do novo namorado da nova estrela da nova geração, do preço das coisas, da violência, dos homens...
Fica evidente, nas entrelinhas, toda carência portada por tão emancipada dama. É quase matemático, quanto mais fala mais acredita. É exatamente disso que ela precisa, falar, falar, falar, até acreditar no que diz.Acreditar que não precisa de ninguém, que sabe o que quer, que tem o controle da situação nas lindas mãos, feitas duas vezes por semana.Tintas, escovas, secadores, conselhos e palavras de auto-afirmação espalhadas entre um cafezinho e outro.Tudo, tudo, tudo!! Passou a tarde naquilo, ficou linda! Pagou, beijou e abraçou meia-dúzia e prometeu voltar pra retocar a raiz na semana seguinte.Saiu ainda mais confiante do que quando entrou, no caminho de casa viu um vestido na vitrine, comprou! Arrumou-se deslumbrante pra alguém, ligou a TV, passava um filme inédito, assistiu até dormir, sozinha, no sofá...
5 Comments:
Muito legal o conto. Rachel S. possui mais um fã agora.
Bju
Ótimo conto. História envolvente como todo conto deve ser.
o que adianta estar linda por fora se por dentro está só?
conheço um monte.
Tanta superficialidade por nada, que seja ela a desvairada enquanto rimos em silêncio de sua cara.
Belo conto!
Rachel,
Seu Conto está cada vez mais lapidado, dando-nos mostras, cada vez com mais brilho, do conjunto harmonioso formado por seu intelecto e por sua sensibilidade.
Parabéns!
Postar um comentário
<< Home