Autonomia e engajamento literário: ramos de uma mesma árvore
por Marcos Fiuza

Gostaria de iniciar estas considerações com um questionamento que envolve diretamente a arte, mais especificamente a literatura: será que é possível a produção artística desvinculada de um projeto ideológico ou o engajamento é o ponto fundamental de sustentação de toda criação?
Inicialmente, é interessante dividir o fazer literário em dois pólos um tanto quanto distintos em seu processo de criação, porém igualmente ricos do ponto de vista da valoração artística. A prosa e a poesia diferem-se, fundamentalmente, desde o seu nascimento até o fim a que cada obra se destina. Podemos entender melhor esses aspectos tomando a teoria de Sartre como ponto de apoio para nossas conclusões. Assim, vemos a poesia como algo, de certa forma, mais distante de um objetivo pragmático, em que o poeta é, de modo geral, um artista intensamente ligado à palavra. Pensando em palavras, primeiramente as entendemos como sendo signos representativos de algo existente no mundo real. Dessa forma, vemos as palavras como uma ferramenta, um utensílio para a realização de determinadas interações comunicativas. É nesse ponto que percebemos como o poeta utiliza a palavra de maneira diferenciada, em que ela não vai, na poesia, representar “coisas” e sim ser as próprias “coisas”. Para o poeta, a palavra não reflete sentimentos, ela É o sentimento. O poeta não intenciona uma comunicação objetiva com seu leitor, pois sua obra reflete o olhar que ele, artista, tem sobre o mundo que o cerca. O artista, por exemplo, quando refere-se a uma cor, não utiliza uma palavra para representa-la e sim acredita ser a cor uma “coisa” em si. Ao olhar para o “vermelho”, o artista enxerga um conjunto de significados que transcendem a simples descrição de uma cor ou uma imagem. Então, entender a poesia como uma manifestação artística isenta de objetivos comunicativos se justifica a partir dessas considerações.
Já a prosa diferencia-se destes aspectos, tendo em vista que o escritor, opostamente ao poeta, lida com significados. O autor narrativo busca representar, mesmo que de forma abstrata, o mundo real. Assim, analogicamente, podemos entender o prosador como um “falante”, em que a sua fala é necessariamente comprometida com uma transmissão de idéias. Há sempre a busca por uma interação comunicativa, onde as palavras são utilizadas de forma a buscar sempre um entendimento por parte dos interlocutores. As palavras não são mais “coisas” auto-suficientes, mas ferramentas a disposição da comunicação. Dessa maneira, pensar em uma narrativa vazia de significados, distante de um projeto ideológico, mostra-se inconcebível perante a característica intrínseca e primordial da prosa.
Em contrapartida, podemos nos questionar sobre a existência de manifestações poéticas vinculadas a projetos ideológicos específicos. Mas, o interessante é compreender que estas obras possuem características mais próximas da prosa do que propriamente da poesia, pois são confeccionadas com uma intencionalidade comunicativa traçada já anteriormente, no qual as palavras mais relacionam-se com significados (signos), do que transmitem um particular olhar do poeta.
Após isto, entendemos que a obra literária, possui características específicas, em que colocar gêneros distintos dentro de um mesmo projeto literário, sem considerar seus aspectos particulares mostra-se ineficaz se partimos de uma visão analítica. E analisando estes mesmos aspectos, concluímos que o vasto campo da literatura proporciona tanto uma abordagem engajada, como também autônoma.

* Marcos Fiuza - Poeta, professor e pós-graduando em Literatura portuguesa e literaturas africanas de língua portuguesa - UFRJ
mvfiuza@yahoo.com.br

4 Comments:

At agosto 04, 2006 1:04 PM, Anonymous Vinicius Longo said...

Acho que você tem razão a poesia me parece em primeira instância ser pur emoção. É normal, um poeta ao terminar de escrever, achar que este poema foi escrito por outra pessoa, quase como uma psicografia. Eu achei que fazia isso, durante muito anos e algumas vezes ainda acho. Não é a toa, que ela é dita como a última linguagem, a linguagem real, onde as ninfas usavam para falar com os deuses. Há uma pura sinceridade na linguagem poética.

Quanto as intenções e engajamentos. Acho que pode haver como não pode. É dificil falar as coisas colocando como única opção. Mas acho que na maioria das vezes há sim, um engajamento. Os poetas lutam uma luta espiritual, onde buscam união, paz e amor. Prosperidade para uma nação, para poderem melhor viver a todos.

Grande Abraço!

 
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